Carros autônomos: mitos, verdades e o futuro do transporte

Anúncios

Carros que dirigem sozinhos já foram coisa de filme, mas hoje circulam de verdade pelas ruas de algumas cidades do mundo, levando passageiros sem ninguém ao volante. Ao mesmo tempo, o tema está cercado de confusão: há quem ache que já dá para comprar um carro que dispensa o motorista e há quem acredite que isso nunca vai acontecer.

Neste artigo, você vai entender como funcionam os carros autônomos, conhecer os níveis de autonomia, separar os mitos das verdades e descobrir o que esperar do futuro do transporte.

Uma ideia mais antiga do que parece

O sonho do carro que dirige sozinho aparece em feiras de tecnologia desde a primeira metade do século 20. Mas a virada aconteceu nos anos 2000, com as competições promovidas pela Darpa, a agência de pesquisa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

No primeiro desafio, em 2004, nenhum veículo conseguiu completar o percurso no deserto: o que foi mais longe percorreu cerca de 12 quilômetros de um trajeto de mais de 200. No ano seguinte, cinco veículos cruzaram a linha de chegada, e o vencedor foi o Stanley, da Universidade Stanford. Muitos engenheiros dessas equipes foram depois contratados por empresas de tecnologia, como o Google, que iniciou seu projeto de carro autônomo em 2009. Esse projeto deu origem à Waymo.

Como um carro autônomo enxerga

Para dirigir sozinho, o carro precisa perceber o ambiente, entender o que está acontecendo e decidir o que fazer, tudo em frações de segundo. Para isso, combina vários sensores:

  • Câmeras: reconhecem faixas, placas, semáforos, pedestres e outros veículos.
  • Radares: medem a distância e a velocidade dos objetos, mesmo com chuva ou neblina.
  • Lidar: um sensor que dispara pulsos de laser e cria um mapa 3D detalhado do entorno.
  • Sensores ultrassônicos: detectam obstáculos muito próximos, úteis em manobras e no estacionamento.
  • GPS e mapas de alta precisão: ajudam o carro a saber exatamente em que ponto da via está.

Um computador de bordo reúne todas essas informações e usa inteligência artificial para prever o comportamento dos outros usuários da via e planejar cada movimento. As empresas não seguem todas a mesma receita: algumas apostam em muitos sensores, incluindo o lidar, enquanto outras tentam resolver o problema principalmente com câmeras.

Os níveis de autonomia

Para organizar o assunto, a SAE International, associação internacional de engenharia automotiva, criou uma escala que vai de 0 a 5:

  • Nível 0: o motorista faz tudo, e o carro, no máximo, emite alertas.
  • Nível 1: o carro ajuda numa função por vez, como o piloto automático que mantém a distância do veículo da frente.
  • Nível 2: o carro controla direção, aceleração e frenagem ao mesmo tempo em algumas situações, mas o motorista precisa supervisionar o tempo todo.
  • Nível 3: o carro dirige sozinho em condições específicas, e o motorista pode tirar os olhos da via, mas precisa assumir quando o sistema pedir.
  • Nível 4: o carro dirige sem motorista dentro de uma área e de condições delimitadas.
  • Nível 5: autonomia total, em qualquer lugar e em qualquer condição.

Mito: já dá para comprar um carro que dirige sozinho

A maioria dos carros com assistentes de condução vendidos hoje está no nível 2. Mesmo os sistemas mais avançados exigem que o motorista mantenha a atenção na estrada e esteja pronto para assumir. Nomes comerciais como “piloto automático” ajudam a criar confusão, mas não significam que o carro seja autônomo.

Alguns modelos de luxo têm sistemas de nível 3 aprovados em determinados países, mas eles só funcionam em condições restritas, como trechos de rodovia com trânsito lento, e dentro de limites de velocidade definidos pelas autoridades.

Verdade: táxis sem motorista já existem

Empresas como a Waymo, nos Estados Unidos, e a Baidu, na China, operam robotáxis sem ninguém ao volante em algumas cidades. O passageiro chama o carro por um aplicativo, entra no banco de trás e é levado ao destino. Esses veículos são de nível 4: funcionam em áreas mapeadas em detalhe, com monitoramento constante das empresas e, quando necessário, apoio remoto de operadores humanos.

Mito: carros autônomos nunca erram

Os sistemas ainda enfrentam dificuldades com situações inesperadas, como obras, sinalização confusa, chuva forte, agentes de trânsito orientando os carros com gestos e comportamentos imprevisíveis de pedestres e outros motoristas. Casos de robotáxis que travaram no meio da rua ou se envolveram em acidentes ganharam as manchetes e mostram que a tecnologia ainda está em amadurecimento. Por isso, a expansão acontece aos poucos, cidade por cidade.

Verdade: eles podem salvar muitas vidas

A grande maioria dos acidentes de trânsito envolve falha humana, como distração, sono, excesso de velocidade e consumo de álcool. Um carro autônomo não se distrai com o celular, não dirige cansado e não bebe. Esse é um dos principais argumentos a favor da tecnologia, e os recursos de assistência que já existem nos carros comuns, como a frenagem automática de emergência, já ajudam a evitar colisões.

Mito: carros autônomos não podem ser invadidos

Qualquer sistema conectado pode ser alvo de ataques. Em 2015, dois pesquisadores de segurança mostraram que conseguiam controlar remotamente funções de um utilitário esportivo pela internet, o que levou a montadora a convocar um recall de cerca de 1,4 milhão de veículos para corrigir a falha. Desde então, a segurança digital virou prioridade no desenvolvimento dos carros conectados e autônomos.

Os dilemas éticos

Se um acidente for inevitável, como o carro deve decidir? Essa pergunta inspirou um experimento online do MIT chamado Moral Machine, que reuniu milhões de respostas de pessoas de vários países sobre escolhas difíceis no trânsito. O resultado mostrou que as preferências variam bastante de uma cultura para outra.

Na prática, os engenheiros se concentram em evitar que essas situações aconteçam, com direção defensiva e frenagem antecipada. Mesmo assim, a discussão ética continua importante para a criação de leis e para a definição de responsabilidades.

E no Brasil?

A legislação de trânsito brasileira parte do princípio de que há um motorista no controle do veículo, e o uso de carros autônomos nas ruas ainda depende de regras específicas. Mesmo assim, o país tem experiências interessantes. Em 2017, o IARA, carro autônomo desenvolvido na Universidade Federal do Espírito Santo, fez sozinho o trajeto entre Vitória e Guarapari, num teste que ganhou destaque na imprensa nacional.

A automação também avança longe das ruas. No agronegócio, tratores e colheitadeiras com direção automática guiada por GPS já são comuns, e mineradoras usam caminhões autônomos em minas, onde o ambiente é controlado e as rotas são previsíveis.

O futuro do transporte

Os carros autônomos devem mudar a forma como usamos as cidades. Entre as possibilidades estão:

  • Menos necessidade de estacionamentos no centro, liberando espaço para praças e moradias.
  • Mais serviços de transporte compartilhado, com carros circulando o dia inteiro em vez de ficarem parados.
  • Mais autonomia para idosos e pessoas com deficiência que não podem dirigir.
  • Caminhões autônomos em rodovias, com impacto na logística e no custo do frete.

Também há desafios pela frente: leis, seguros, responsabilidade em caso de acidente, o risco de mais carros vazios circulando e o impacto sobre quem trabalha como motorista.

Perguntas frequentes

Quem é responsável se um carro autônomo causar um acidente?

Depende da legislação de cada país e do nível de autonomia. Nos níveis 1 e 2, o motorista continua responsável. Nos níveis mais altos, cresce a discussão sobre a responsabilidade da fabricante e da empresa que opera o serviço.

O piloto automático do meu carro é autônomo?

Não. O piloto automático adaptativo e a assistência de permanência em faixa são recursos de nível 1 ou 2 e exigem supervisão constante do motorista.

Quando teremos robotáxis no Brasil?

Não há previsão. A chegada depende de regras específicas, de mapeamento detalhado das cidades e de testes adaptados às condições do trânsito brasileiro.

Conclusão

Os carros totalmente autônomos ainda não estão nas concessionárias, mas a tecnologia avança rápido e já transporta passageiros em algumas cidades do mundo. A transição será gradual: antes de o volante desaparecer, os carros comuns devem ganhar cada vez mais recursos de condução assistida, que já tornam o trânsito mais seguro.

ARTIGOS RELACIONADOS

Most Popular